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EINSTEIN, TRUMAN E AS ESCOLHAS IMPOSSÍVEIS PDF Imprimir E-mail
Por Marcos de Moura Bittencourt e Azevedo   
17 de março de 2008
 

einstein-tongue.jpgHá escolhas na vida que relutamos em fazer, não porque podemos evitá-las, mas porque sabemos, desde logo, que as conseqüências serão doloridas, qualquer que seja o caminho escolhido (recordo-me de um filme já antigo, chamado "A escolha de Sofia", que ilustra com extrema dramaticidade esta espécie de dilema: escolher entre o que parece ruim e aquilo que é ainda pior).

Apesar de freqüentes em dramas privados, por vezes tais dilemas dizem respeito a questões públicas, implicando na criação de fatos que irão repercutir sobre uma coletividade ou, mesmo, sobre toda a humanidade. A história mostra que, em circunstâncias extraordinárias, a escolha de um único indivíduo pode alterar completamente o rumo dos acontecimentos, produzindo conseqüências que, de antemão, não se mostravam inteiramente previsíveis.

Harry S. Truman, Presidente americano ao final da 2ª. Guerra Mundial teve, literalmente, uma bomba dessas nas mãos, ao optar entre o prosseguimento de uma guerra sangrenta e custosa (sabe-se lá quantos soldados americanos ainda morreriam nas batalhas do Pacífico) e a solução rápida, representada pelo uso da bomba atômica, uma arma que produziria impacto devastador, não apenas sobre vidas humanas mas, principalmente, sobre o rumo subseqüente da história. Certa ou errada, justificável ou não, a opção de Truman não deve ter tirado muitos minutos de seu sono; afinal, naquele momento histórico (e do pensamento americano), centenas de milhares de vidas japonesas valiam muito pouco em cotejo com a vida de um único soldado americano. Truman agiu como a maioria dos homens públicos contemporâneos, para os quais Maquiavel já atingiu status de divindade; falta apenas emoldurar como oração aquilo que é atribuído ao pensador italiano, com uma pequena adaptação ao moderno pensamento político: "Meus fins devem ser atingidos por quaisquer meios."  (...)

 

O certo é que depois de Hiroshima tudo mudou, sendo possível sentir o fator nuclear presente em todos os aspectos que envolvem as relações entre os países, da diplomacia à economia (neste particular, não deixa de ser irônica a invasão japonesa no mercado econômico americano, reflexo não apenas da bomba, mas também da mudança da mentalidade nipônica no pós-guerra; de restritas ambições territoriais na Ásia, o novo Império Nipônico almeja conquistar a hegemonia econômica mundial).

O dilema de Truman, no entanto, teve origem alguns anos antes com o dilema semelhante enfrentado por Albert Einstein, cientista e humanista de valor extraordinário que, seguramente, perdeu inúmeras horas de sono por conta da opção que foi forçado a enfrentar. Vale à pena recordar.

A hipótese de construção de uma arma nuclear era, desde o início, uma das possibilidades suscitadas com a sua revolucionária teoria da relatividade, hipótese desde logo refutada por Einstein, sob o argumento de que a energia necessária para extrair energia do núcleo do átomo seria infinitamente maior do que a energia ao final obtida no processo. Por anos Einstein seguiu acreditando nisso, até que a descoberta de um novo elemento químico - o Urânio-235 -, aliada a novas descobertas científicas (em especial, a teoria da reação em cadeia), provaram ao humanista que a bomba era não apenas possível, mas estava muito perto de ser obtida pelos nazistas na Europa. Mesmo diante desta aterradora perspectiva, sabe-se que Einstein relutou em tomar qualquer iniciativa, o que só acabou fazendo pela insistência de amigos que, com razão, demonstraram-lhe a inevitabilidade da bomba; melhor que estivessem em mãos mais responsáveis que as de Hitler. Daí a carta dirigida ao Presidente Roosevelt, que daria origem ao Projeto Manhattan e alteraria o curso da história. Ainda assim, quando Hiroshima foi devastada, posso imaginar um amargurado Albert Einstein chorando de arrependimento...

Tais exemplos são emblemáticos e mostram que, sob certo aspecto, Einstein é mais responsável do que Truman pelo que aconteceu em Hiroshima, pois, ainda que todos os seus motivos tenham sido nobres e válidos (o que não se pode afirmar em relação ao presidente americano), não fosse a teoria da relatividade a ciência teria demorado mais algumas décadas até chegar à era atômica. Ainda assim, um único Albert Einstein agregou mais valor à humanidade do que centenas de políticos como Truman (e Bush, seu descendente direto), cujas opções políticas são tomadas não ao sabor da ética ou da moral, mas sim ante considerações circunstanciais e propósitos mesquinhos.

Por outro lado, tais exemplos também demonstram que, por mais que seja possível antever o potencial transformador - e perigoso - de certos fatos, algumas escolhas não podem ser evitadas, especialmente porque, em certos assuntos, a omissão pode ser a pior de todas as opções.

E mais. A chave que abriu a última porta no caminho para a bomba atômica - o princípio da reação em cadeia - nos mostra que fatos novos e potencialmente transformadores podem gerar conseqüências impossíveis de serem previstas, exatamente porque, tal qual na física nuclear, a humanidade evolui de acordo com este princípio.

De fato, o distanciamento temporal (e, sobretudo, emotivo) dos fatos históricos permite-nos até mesmo extrair efeitos positivos de tragédias vividas por nossos antepassados; assim é que a mortandade provocada por epidemias, por inúmeras guerras, e por vários outros desastres históricos, muito contribuiu para a evolução do conhecimento humano e, quando menos, alivia o problema de excesso populacional que hoje enfrentamos. Ou alguém imagina o que seria o mundo hoje sem a peste negra que, sozinha, dizimou um terço da população mundial??

Pois bem. O valor relativo com que se aprecia e interpreta praticamente todos os fatos históricos permite a muitos, não sem alguma dose de razão, ver a própria bomba atômica como um elemento pacificador, na medida em que sua existência evitou muitos conflitos que, de outra forma, não fosse a ameaça atômica, teriam dizimado muitas vidas humanas. Sob esta perspectiva, Hiroshima não teria sido em vão.

A conclusão?? Nenhuma. Em alguns momentos precisamos fazer escolhas impossíveis, que dividem nossos instintos e nossa razão; a bomba da vez, a nova escolha de Sofia, é a questão do uso em pesquisas científicas de embriões humanos, polêmica que envolve argumentos relevantes e apaixonados, em um e outro sentido. Não vou ficar em cima do muro, mas fica para outra oportunidade.

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